Medusas que me lêem agora ...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A estrada


Decidimos viajar, era final de tarde, fizemos as malas, transportamo-las para o carro, antes de partir tomamos um café. Não sabíamos o rumo da nossa viagem, fomos estrada fora. Tudo ia muito animado, cantávamos, riamos, tirávamos fotografias. A criança que ia atrás deixou-se, entretanto dormir, baixamos a música e começamos a falar.
Eu ia a conduzir, não sei bem para onde. Já era tardíssimo, liguei os máximos para ver melhor a estrada, ele pouco depois deixou-se dormir, ia só eu, a concentração tornou-se mais intensa, nada podia correr mal. Decidi ir por caminhos desconhecidos, deixei-me levar pela aventura do meu ser, (não sou assim), mas queria saborear a adrenalina.
Pois bem, meti-me por caminhos e serras, estava muito escuro, a estrada começou a encurtar, os traços mal se viam, não havia separadores, sinais, não cruzávamos com carro, não havia pessoas nem animais, comecei a achar estranho, mas estávamos a atravessar a serra. Entretanto começa a haver nevoeiro, um nevoeiro serrado, abrandei a velocidade para metade, já ia a 20 km, liguei a luz de nevoeiro.
No meio do caminho e do nevoeiro serrado, começo a ver pessoas com paus a correr serra abaixo, não sei o que estava a passar, paro o carro, abro a porta e vou nas suas direcções, mas deparo-me que não havia pessoas, meu coração entrou em pânico, batia fortemente, comecei a chamar-me de maluca, assim que entrei no carro, vejo novamente essas pessoas, pareciam ser sempre as mesmas. Decidi aproximar mais um pouco, para ter a certeza do que via, parei novamente o carro, mas não saí, o motor ficou a trabalhar, esperei que todas as pessoas passassem, eram muitas, mas ouve uma que se destacava no meio de tantas, era um homem grande, trazia a camisa rasgada, o colete já não tinha costas, as calças a meia perna todas rasgadas, as meias cheias de buracos, os sapatos rotos no calcanhar e um lenço ao pescoço todo sujo, o cabelo completamente despenteado, olhos profundos e negros (não se viam), a barba rala, parou e virou-se para mim, aproximou-se um pouco, tranquei as portas, olhou-me nos olhos fixamente e começou a apontar com o pau, que trazia na mão, uma direcção. Ele era horrível, mas parecia estar aterrorizado, com algo que eu não percebia o que se estava a passar, eu agarrada ao volante com os olhos bem aberto sem pestanejar, não me mexia, não respirava, deixei ir o carro abaixo, estava aterrorizada.
Pestanejei, segundos e o nevoeiro desapareceu, o carro estava desligado a música era só ruído, encostei a cabeça ao volante e perguntei: “estarei cansada?”, “o que é que se passou aqui?”, liguei o carro para continuar o caminho, o carro não pegava, tentei acorda-lo para me ajudar e ele nada, eu sabia que tinha que ir ver se o motor estava bom, mas tinha medo, procurei o meu telemóvel para ligar há assistência de viagens, mas não havia rede, então peguei no meu MP3, pus a música bem alto para não correr o risco de ouvir qualquer coisa, receei, tentei novamente, para ter a certeza de que o carro não pegava e não pegou, abri a porta vagarosamente, a minha visão parecia captar tudo em meu redor, estava a tremer de medo, abri o capo, mas sempre a olhar para a frente, um dos fios do meu MP3 ficou preso e caiu-me da orelha, nos segundos em que estava a olhar para o motor, a música pára e sinto uma voz bem perto da minha orelha que dizia “ não vás para ali”, fiquei estática e apavorada, a voz sumiu, comecei a gritar mas ninguém me ouvia, queria correr as minhas pernas pareciam não querer andar, fecho o capo batendo com toda a força, mas ninguém me acudia, parecia estar presa há terra, entrei em transe, baixei a cabeça e contei até 10, não sei como aconteceu já tinha na orelha o auricular que me tinha caído, a música estava muito alta, dirigi-me para o carro, estava branca sem reacção. Entrei no carro, sentei-me, agarrei o volante para ter a certeza que estava segura e fiquei minutos a olhar o vazio que estava à minha frente.
O carro ligou-se a música começou a dar, bati-me na cara para acordar, introduzi recuo, inseri a primeira e voltamos para trás.
Já na auto-estrada, paro na estação de serviço para tomar café, pego na carteira, saio do carro, ele e a criança ficam no carro a dormir, vou até ás portas automáticas, e abrem-se caminho até ao balcão, estava de rasto, ia de cabeça baixa a contar as moedas para pagar o café, quando olho para cima, a pessoa que estava atrás do balcão... era o homem grande que me tinha fixado os olhos naquela noite horas antes.

Sem comentários: